Quando se viaja, e se se for um verdadeiro viajante, interessa o pormenor da aventura, do desvio, do imprevisto. Neste passeio que vos vou contar, há a hipótese da auto-estrada, sim, mas a dado momento as rodas do carro tomaram atalhos perdidos e também foi bom deambular pela incerteza do caminho, algures entre o Carregado e Alenquer, a caminho daquela que era a nossa cidade destino: Leiria.
O Mosteiro da Batalha é sempre um regalo para os olhos de mesmo quem já o contemplou inúmeras vezes. Recorda-nos um tempo em que a nossa Nação tinha o seu futuro em aberto, e um mundo inteiro para explorar. Ele simboliza isso mesmo. O fim de uma época medieval, onde Portugal era apenas um campo de experiências de reis e príncipes e o início de uma aventura moderna sem igual. E D. João, Mestre de Avis, foi o protagonista dessa transição. Em termos de arquitectura, há gótico, manuelino e um pouco de maneirista para contrabalançar. Em cima, a estátua do homem que ajudou D. João nessa sua conquista de pôr fim a um pesado fardo medieval: Nuno Álvares Pereira. Imponente, forte, contrastante, como a sua personalidade e carácter aguerrido. As minhas homenagens também.
Este é um destino que nos leva a viajar no tempo ainda mais longe do que na Batalha, uma vez que o protagonista da história de Leiria é sobretudo Afonso Henriques, seu fundador, em 1135.
No entanto, é a história do castelo que nos conduz nesta narrativa medieval, onde por momentos nos perdemos no tempo e subimos, com o suor na testa, o imprevisível caminho até às muralhas fabulosas do monumento, no alto do penhasco cercado pelo rio Lis.
Embora receba entre 60 a 70 mil turistas por ano, o Castelo de Leiria pareceu-me um pouco abrigado dessa massa de visitantes que domina monumentos como por exemplo o Mosteiro da Batalha ou o de Alcobaça. Talvez tivesse sido só impressão, mas na verdade, explorámos os meandros do castelo, com uma sensação de termos esta enorme fortaleza só para os nossos olhos. Percorremos este outrora reduto de defesa e administração religiosa, em busca dos recantos mais apetitosos, das esquinas mais históricas, e encontrámo-los para lá das suas muralhas românicas: as ruínas da Igreja de Santa Maria da Pena, os Paços novos do Castelo, com suas salas medievais e varandas de cortar o fôlego, a altura da Torre de Menagem, o vento a empurrar-nos na direcção do futuro - do estádio do União de Leiria.
Almoçámos num delicioso restaurante-tasca, no centro de Leiria, o Prato Feito (e não Gato Preto, como um de nós sugeriu que fosse, sem óculos) . Recomendo vivamente o bitoque, que vem com tudo, está bem feitinho, e custou apenas 6 euros.
No fundo, como não podia deixar de ser, completámos a nossa viagem no tempo com um regresso ao tema inicial. A Batalha de Aljubarrota, célebre pela táctica do Quadrado, pelo venerável santo condestável Nuno Álvares Pereira, que comandou os exércitos portugueses, e inspirou toda uma nação a lutar pela sua independência. Tempos recuados esses, em que a coragem e a glória ficavam gravadas na História como marcos de orgulho nacional. Hoje, não passam de episódios caricatos, que nos fazem sorrir ou sonhar, mas sempre como se de um filme se tratasse. Outras batalhas se travam no século XXI, mais subreptícias, menos sangrentas. A mais mortífera para um país é sem dúvida a falta de um espírito guerreiro, aventureiro, que não olha para as páginas do passado, para aprender as melhores lições a aplicar no futuro. A mais mortífera porque sem identidade, um país não passa de um franchising, uma imitação de algo que há em todo o lado.Valha-nos a Padeira de Aljubarrota, feia e ossuda, que com sua pá, tanto fazia pão como lutava pelos seus ideais. Ainda que ela não soubesse muito bem o que estes seriam.
E esta foi a chave de ouro de um dia de passeio pela história da região de Leiria. Uma pausa em Torres Vedras, para atestar e esticar as pernas. Porque esta coisa de passear, no espaço e no tempo, dá uma fome dos diabos!
Catarina Durão, 14/08/2008
Contactos do Castelo de Leiria:
244813982
div.cultura@cm-leiria.pt
www.cm-leiria.pt
Horários:
Verão - 10h/18h30
Inverno - 10h/17h30
Preços:
Castelo - €1,18
Torre de Menagem e Núcleo Museológico - €2,37