sábado, 16 de novembro de 2013

Afonso Vaz Pinto Paleontólogo aos oito anos

em http://www.publico.pt/ciencias/jornal/afonso-vaz-pinto-paleontologo-aos-oito-anos-26901797#/0

Tal como um cientista crescido, deu uma palestra, com PowerPoint e nomes científicos incluídos, no Pavilhão do Conhecimento, em Lisboa. Título: O mais novo paleontólogo que conhecemos. Tudo começou com uns desenhos animados na televisão e muitos livros de dinossauros oferecidos pelo pai.
É dia de festa no Pavilhão do Conhecimento, em Lisboa. A Orquestra Geração afina os instrumentos para o concerto que vai animar os convidados. Na rua, fazem-se experiências químicas junto da recém-inaugurada tabela periódica que preenche uma das paredes daquela que é por excelência a casa da ciência no Parque das Nações. O azoto líquido faz as delícias das crianças, de bocas e olhos abertos, enquanto o monitor da actividade manuseia o componente como se fizesse um truque de ilusionismo. O Pavilhão do Conhecimento - Ciência Viva faz 14 anos, é dia de inaugurar uma exposição interactiva como se estivéssemos numa oficina, de ver a uma peça de teatro sobre a água, mas é sobretudo dia de conhecer Afonso Vaz Pinto, um pequeno paleontólogo.
Chega acompanhado da família. Vieram de Angola há uns dias, como fazem muitas vezes no Verão, quando tiram férias. O pai, Pedro Vaz Pinto, é o biólogo que mais tem defendido a conservação da palanca--negra, símbolo da fauna angolana, em vias de extinção.
Daí a uns minutos, o pequeno paleontólogo fará a primeira palestra da sua vida. Tem apenas oito anos. Nada tem de pomposo quando o avistamos de T-shirt azul, sorridente, pele muito morena. É um menino como todos os outros, gosta de brincar, é bom aluno, mas sente-se como peixe na água quando lhe pedem para falar de fósseis. E não fala por falar, sabe o que diz, emprega os nomes científicos, memoriza palavras compridas que até um adulto não conseguiria pronunciar.
Afonso Vaz Pinto nasceu em Portugal, mas é angolano. Desde os cinco anos que sonha com dinossauros, época em que costumava ver uns desenhos animados na televisão, onde os animais pré-históricos eram as estrelas. "Chamava-se o Comboio dos Dinossauros", recorda, como se tal coisa lhe tivesse sucedido há muitos anos. O interesse transformou-se em fascínio, sobretudo alimentado pelo pai, que lhe comprava livros e mais livros sobre dinossauros.
A caminho do 4.º ano, já sabe que não pode falar muito sobre o seu passatempo aos amigos da escola, até porque "eles não querem saber de dinossauros, estão mais virados para a tecnologia" e ele é um convicto admirador das coisas antigas. Já foi chamado ao quadro pela professora para falar sobre a sua paixão, os fósseis, mas nunca lhe tinha passado pela cabeça fazer uma palestra, como a que fez na última quinta-feira, sobre paleontologia, a que o Pavilhão do Conhecimento deu o título O mais novo paleontólogo que conhecemos.
Traz um PowerPoint com explicações científicas e com as novidades das suas descobertas. Diz que não está nervoso e até parece que faz isto todos os dias.
"Em Angola, só foi descoberto um único dinossauro, o Angolatitan", conta-nos, antes de iniciar esta nova experiência como conferencista. O resto são répteis marinhos e pterossauros, ou seja, répteis voadores. É aqui, na desmistificação de que nem todos os répteis pré-históricos são dinossauros, que o paleontólogo júnior insiste e, na apresentação no PowerPoint, quer chamar a atenção para isso. "Os dinossauros são terrestres, apesar de terem vivido ao mesmo tempo que os répteis marinhos e voadores e de se terem extinguido também ao mesmo tempo."
A história de Afonso Vaz Pinto cruza-se com a do paleontólogo português Octávio Mateus, que tanto escava na Lourinhã, sua terra-natal, como em Angola, onde está por estes dias. Foi o investigador português que descobriu oAngolatitan em 2011, no decorrer do projecto PaleoAngola. Afonso chama-lhe "paleontólogo famoso" e tem-no como amigo e professor. "O Octávio ensinou-me muitos nomes de fósseis." Não se recorda bem de como o conheceu, mas é como se sempre tivesse feito parte da sua vida.
Sempre que ambos estão em Angola, Afonso junta-se à equipa de Octávio Mateus e participa nas escavações. Não consegue passar sem isto, nem consegue tirar os olhos do chão e das paredes das montanhas. Foi assim, quando tinha sete anos, que fez aquele que considera ser o seu primeiro grande achado paleontológico, em Bentiaba, perto do Lubango, onde mora com a família: "Estávamos a andar de carro, olhámos em frente e dissemos: "Isto é um osso?" Ainda pensámos que era uma raiz, mas depois saímos do carro e vimos que tinha dentes!", relata Afonso, abrindo as mãos para mostrar o tamanho da mandíbula de um mosassauro, um réptil marinho, que encontrou há cerca de dois anos.
A sua outra grande descoberta é portuguesa. "Só descobri um único dinossauro, aqui em Portugal, na Lourinhã", conta, com orgulho. Foi convidado por Octávio Mateus para participar numa escavação com outros dois paleontólogos, e, enquanto Afonso Vaz Pinto dava um passeio, com os olhos cravados no chão, encontrou algo que lhe pareceu ser osso. "Um dos paleontólogos disse que aquilo era uma pedra e que eu devia deitar fora. Mas depois o outro sugeriu que fizéssemos um truque para ver se era osso ou pedra. Passas a língua no lábio e depois beijas o fóssil, se colar é osso, se não colar é pedra", descreve com a simplicidade da sua experiência de vida. "Um paleontólogo fez isso... colou e começou a gritar: "É osso, é osso!""
O osso era afinal a base de um espinho de um Miragaia longicollum, pertencente à família dos estegossauros. "Mas era uma espécie diferente porque tinha 17 vértebras no pescoço, enquanto os outros só têm apenas quatro ou cinco. Agora o meu achado vai para ao Museu da Lourinhã."
Desde aí, não tem parado de coleccionar fósseis de répteis marinhos, dentes de tubarão e de outros peixes que encontra nas suas prospecções em Angola. "À porta de minha casa tenho os fósseis mais antigos do mundo. Olhava para o chão e via muitos dentes diferentes. Há um dente de tubarão que tem duas cúspides de lado que se chama Cretolamna biauriculata."
As explicações continuam, Afonso Vaz Pinto não faz qualquer esforço para se recordar de tudo o que nos diz. Fala de estromatólitos, que viveram há cerca de 1100 milhões de anos no território que agora é Angola, como quem fala de um qualquer assunto banal: "Há uma zona muito perto do Lubango, que é Humpata, que tem umas falésias cheias desses fósseis, que são os estromatólitos. Eram bactérias que cresciam de baixo de água, mas à medida que [o nível] da água subia [bastante], as bactérias morriam."
Em casa, no Lubango, a colecção vai-se avolumando. "Os fósseis que tenho agora estão todos guardados em casa, estão limpos e protegidos, todos prontos para ir para o museu", explica Afonso, que acalenta o sonho de construir uma casa para a paleontologia angolana no Lubango.
Foi o pai que lhe transmitiu a ideia de que os seus achados não lhe pertenciam, mas sim à ciência. É um projecto para o futuro, mas ainda em fase embrionária. A mandíbula de mosassauro, descoberta que tanto o orgulha, está guardada numa caixa à espera do dia de ser mostrada ao público angolano.
Para já, o período de férias em Portugal sabe-lhe bem. Além da habitual ida ao Museu da Lourinhã - onde se encontram os ovos de dinossauros carnívoros mais antigos do mundo, com 150 milhões de anos -, que visita sempre que pode, delicia-se com a exposição Quando as galinhas tinham dentes, no Pavilhão do Conhecimento até 8 de Setembro e onde os dinossauros parecem de verdade. Conhece-os todos e o Tyrannosaurus rex não é o seu preferido. "Gosto de todos", diz, encolhendo os ombros. Todos gostam do T-rexou doTriceratops ou dos enormes braquiossauros, por isso não tem piada escolher os mesmos. Mas, pensando melhor, elege o Stygimoloch. "Era um paquicefalossauro, herbívoro e mais ou menos da minha altura. Gosto dele porque tem um capacete oco com espinhos e cornos na cabeça."
Não tem dúvidas quanto à profissão que quer ter. "Se não for paleontólogo, vai ser muito difícil esquecer estas coisas todas." Insistimos: e se não for paleontólogo? Detém-se uns segundos a pensar e, sem encontrar outras opções, abana por fim a cabeça, rejeitando a ideia. "Não, tenho mesmo de ser!"
A hora de discursar aproxima-se. O átrio do pavilhão está cheio de convidados para o ouvirem e Rosalia Vargas, directora da Ciência Viva-Agência Nacional para a Cultura Científica e Tecnológica, apresenta-o. Foi numa expedição que a equipa do Ciência Viva fez há uns meses ao deserto do Namibe, no Sudoeste de Angola, que conheceram Afonso, "no terreno, em plena acção". "Andava à procura de fósseis de tubarões, de répteis marinhos e de peixes com mais de 70 milhões de anos", conta Rosalia Vargas. "É uma inspiração para os mais novos. Diria mais, é uma inspiração mesmo para os adultos."
Ele avança para a tribuna e, esticando o pescoço na direcção do microfone, inicia: "Olá, eu sou o Afonso e vou falar-vos das minhas aventuras paleontológicas em Angola."

1.08.2013

Cheguei ao 12.º ano. E agora, que rumo seguir?

Todos os anos milhares de alunos confrontam-se com a decisão das suas vidas: que rumo académico seguir, quando a crise afecta todos os sectores profissionais?
O desabafo parte de Fátima Silva, de 18 anos: "Estou tão confusa com a vida". Mas é extensível aos milhares de estudantes que todos os anos se confrontam com as difíceis escolhas no acesso ao ensino superior. No caso de Fátima Silva, a confusão perdura desde que, há três anos, tomou a outra grande decisão da sua vida: seguir Humanidades no 10.º ano. "É difícil termos de decidir tão cedo, algo que decide por completo o nosso futuro".
Por estes dias, a decisão é outra e passa por preencher uma candidatura de acesso ao ensino superior, onde terão de se considerar seis hipóteses de curso; seis potenciais caminhos determinantes na construção de uma vida. E Fátima continua confusa, não só porque não tem a certeza de ter as médias necessárias, mas porque, ao decidir um rumo que concilia interesses pessoais e saídas profissionais, estará a deixar de fora duas grandes paixões que entretanto consolidou: teatro e música. Quem a viu actuar no grupo de teatro ou na banda de rock da Escola Secundária Rainha D. Leonor, em Lisboa, não tem dúvidas quanto ao seu talento como actriz e cantora. Mas o fantasma do desemprego e da instabilidade na carreira artística assustam-na e, quase por instinto, arrumou esses sonhos num armário, para mais tarde poder resgatá-los.
Por ora, Fátima segue os seus outros instintos: "Quero cuidar de crianças especiais. Vou tentar fazer a licenciatura em Educação Básica e o mestrado em Educação Especial", revela, acrescentando que, dessa forma, sempre poderá recorrer às artes dramáticas e à música para desenvolver um trabalho mais estimulante junto de crianças com necessidades educativas especiais. Foi a fórmula mágica a que chegou, depois de muitas conversas com amigos, familiares e professores, que lhe deram sugestões e conselhos. Ainda assim, o preenchimento das restantes cinco opções deixa-a apreensiva: "E se não consigo média para entrar?".
O medo do desemprego é o que mais atormenta os jovens candidatos ao superior e talvez por isso seja comum a "desorientação" que muitos sentem nas vésperas da candidatura. Marta Martins, com o 12.º ano em Ciências e Tecnologias, sempre soube que o futuro passaria pela vertente científica. Mas nem isso facilitou a escolha do rumo: "É muito difícil escolher uma coisa com base naquilo que nos imaginamos a ser daqui a tanto tempo. Há uma enormidade de factores que temos de ter em conta e que só deviam chegar mais tarde. Que vida queremos ter? Onde queremos viver? Filhos?"
Já Rui Sousa garante que não está confuso e que desde o 9.º ano sabe exactamente o que quer. Ouviu "muitos conselhos e avisos contraditórios", mas chegou por si próprio à conclusão de que só tem uma vocação, a comunicação social. A rádio, a televisão e o cinema são universos que o fascinam e dos quais Rui já começou a sentir o gosto. Escreve sobre cinema, literatura e televisão no seu blogue Companhia das Amêndoas, desde os 14 anos. Aventurou-se numa estação de rádio escolar e foi um dos coordenadores do projecto "Cinema no Rainha". "Se mantiver a média de 17, estou a pensar seguir Comunicação Visual na Universidade Católica, até porque com essa média consigo obter isenção de propinas. Se não, vou para Ciências da Comunicação na Nova", esclarece o jovem de 18 anos.
"Depende muito das escolas"
No difícil processo de escolha, há os que, como Rui, definem um percurso claro a partir do 9.º ano, mas há uma vasta maioria que passa os três anos do secundário sem fazer ideia do que fazer a seguir ao 12.º. Os apoios previstos pelas escolas nem sempre são suficientes para informar os alunos sobre as ofertas de cursos e faculdades, bem como das médias necessárias para ingressar no ensino superior. Em termos de orientação vocacional, o apoio é mais garantido no 9.º ano, momento fundamental que determina o prosseguimento dos estudos numa área de interesse dos alunos, aferida por meio de testes vocacionais realizados pelos Serviços de Psicologia e Orientação (SPO).
De acordo com a psicóloga do SPO da Secundária Rainha D. Leonor, Joana França, "não existem momentos suficientes nas escolas para garantir uma boa preparação dos alunos do secundário no acesso ao ensino superior". É uma realidade que a ultrapassa e a todos os colegas de profissão, assoberbados com inúmeras tarefas. "Com os mega-agrupamentos e com o aumento de alunos por turma, a situação tende a piorar, até porque não houve alteração quanto ao número de psicólogos".
A própria Ordem dos Psicólogos defendeu, no dia 17, que eram precisos mais 750 profissionais a tempo inteiro nas escolas, de modo a encurtar o rácio de 1500 para mil alunos por psicólogo. A Ordem denunciou ainda o vínculo precário de 176 psicólogos contratados, sem condições para efectuar um trabalho continuado.
A lei que regulamenta os SPO, de 1991, é clara quanto à necessidade de se criarem actividades que fomentem a orientação de alunos, mas não especifica a obrigatoriedade de priorizar a orientação no ensino secundário, com vista a uma maior sensibilização para o superior. Joana não considera que a lei deva ser mudada, "até porque ela prevê autonomia científica e técnica aos psicólogos". O problema é, dentro da gestão do plano anual de actividades dos SPO, conseguir fazer tudo.
Não obstante as dificuldades, Joana França conseguiu agendar com os alunos do 12.º ano sessões de esclarecimento sobre a candidatura ao superior, já de si um processo burocrático e complicado. "Infelizmente, muitos não aparecem nas sessões e, sabendo da existência de um gabinete de orientação, são poucos os que resolvem procurar-me".
É comum muitos jovens chegarem ao 12.º ano sem se aperceberem que existe um serviço de psicologia e orientação. Joana França explica que "o que se faz depende muito" das escolas. "Há professores que organizam visitas a faculdades ou a feiras de orientação, como a Futurália. Às vezes são as faculdades que cá vêm. A antiga Área de Projecto no 12.º ano era mais uma oportunidade para se debaterem esses assuntos, agora até isso desapareceu. Temos muita falta de momentos destes".
Encontrar a vocação
Muitas das informações de que os alunos precisam estão no site do Ministério da Educação, mas não são suficientes para ajudar no processo da escolha. Os pais dos alunos são importantes na decisão mas já não impõem as suas opiniões como há uns anos. "Há mais pais a valorizar os interesses pessoais dos alunos, até porque neste momento todas as áreas apresentam problemas de saídas profissionais", explica a psicóloga.
Isabel Alexandrino, professora de Português na Escola Secundária de Odivelas e directora de turma, confirma a sensação de que há mais encarregados de educação a apoiarem os seus educandos nas suas escolhas pessoais. "Alguns pais que têm possibilidades financeiras recorrem também a psicólogos de orientação vocacional fora da escola", diz. Como directora de turma, tem feito o que pode: "Ajudo alguns alunos a reflectir sobre o que é melhor para eles, aconselho-os e converso com os encarregados de educação, mas as escolhas são feitas em família".
As principais preocupações dos alunos continuam a ser as saídas profissionais, embora ainda existam muitos que "insistem no prosseguimento dos estudos de forma romântica, uma vez que não têm a noção ou das suas reais dificuldades ou das poucas ou nenhumas saídas que esses cursos apresentam", acrescenta Isabel Alexandrino.
A própria adaptação à faculdade pode ser complicada. Pedro Barbosa, 20 anos, esperou um ano para entrar na faculdade, tempo durante o qual aproveitou para melhorar Matemática. Quando foi admitido em Química Aplicada na Universidade Nova de Lisboa, sentiu o embate: "Consegui acompanhar a grande maioria das matérias, mas em relação aos métodos de trabalho e de estudo nem tanto. Acabava as semanas psicologicamente esgotado".
Outras vezes, são os cursos que trocam as voltas aos estudantes. Foi o que aconteceu a Patrícia Dias, de 20 anos, que iniciou o seu percurso em Enfermagem, há dois anos, mas que, ao constatar que não tinha vocação para enfermeira, decidiu recandidatar-se a Medicina Veterinária. Foi a experiência no terreno que lhe deu a certeza do que queria fazer para o resto da vida: "Enquanto terminava o primeiro ano em Enfermagem, procurei uma clínica veterinária onde pudesse passar algum tempo, assistir a consultas, receber conselhos de profissionais da área. Foi esse período que me permitiu encontrar a vocação", conta Patrícia.

21.07.2013

D. Manuel III, um patriarca para tempos difíceis

em http://www.publico.pt/sociedade/noticia/d-manuel-iii-um-patriarca-para-os-tempos-dificeis-1599482#/0


“It’s the oldest church in Lisbon”, diz um rapaz, que parece perceber da história de Lisboa, a uma companheira turista, escondida do sol abrasador por baixo de um chapéu-de-chuva. A igreja mais antiga da capital é obviamente a Igreja de Santa Maria Maior, mais conhecida por Sé Patriarcal. “O que se passa aqui? Um casamento importante?”, pergunta ela. A Sé está enfeitada com arranjos florais brancos e verdes e a passadeira vermelha, estendida ao longo da entrada, conduz ao interior da igreja, onde as portas centenárias de madeira se abrem ao povo de Lisboa.
O espaço está aparentemente cheio, mas encherá mais ainda. O clima é de espera, o calor ameniza-se com o fresco das paredes medievais e a música do coro, forte e intemporal, preenche os espaços ainda vazios do templo.
É dia de tomada de posse do novo patriarca de Lisboa, D. Manuel Clemente, que, agora aos 64 anos, passará a chamar-se D. Manuel III. A ocasião é de festa, mas está impregnada de protocolo e de uma linguagem ritual tão antiga, como porventura será o Patriarcado de Lisboa, que teve o seu início em 1716.
É o 17.º patriarca de Lisboa a tomar posse, diante do Cabido da Sé (Colégio de consultores), depois de o cardeal patriarca D. José Policarpo ter atingido os 75 anos e por isso renunciado ao cargo, em 2011. A nomeação pelo Papa Francisco aconteceu no passado dia 18 de Maio, deixando, assim, D. Manuel Clemente, o lugar de Bispo do Porto, para regressar a Lisboa, onde estudou e viveu muitos anos, tendo inclusive ocupado o cargo de bispo auxiliar de Lisboa. Ainda não é cardeal, mas sê-lo-á em breve, assim que for marcado o consistório pelo Papa Francisco.
Os protagonistas da cerimónia chegam pouco depois das 10h30 e é precisamente à porta da Sé que se dá cumprimento ao primeiro passo do rito. D. José Policarpo, agora patriarca emérito, surge acompanhado de D. Manuel Clemente e ambos são recebidos pelo deão, o cónego Carlos Paes. D. José Policarpo, na figura de administrador apostólico, apresenta o patriarca eleito ao deão, e este dá-lhe a beijar o crucifixo. Manuel Clemente asperge-se e aos que o rodeiam com água benta e prepara-se para entrar na igreja mais antiga de Lisboa, onde centenas de fiéis e membros da comunidade eclesiástica o esperam, com ansiedade.
O cortejo leva o novo patriarca pela nave lateral esquerda até à Capela do Santíssimo Sacramento. D. Manuel III está tranquilo e bem-disposto; sorri com naturalidade como se fosse um qualquer dia da sua vida. Existem barreiras que impedem os assistentes de ver o que se passa no interior da capela, mas sabemos que o tempo que vão demorar é para fazer uma oração.
Uma barreira humana de cinco escuteiros pré-adolescentes permanece, quase imóvel, entre a nave lateral e a nave central. Os pequenos guardas da passagem, de mãos atrás das costas, começam a denunciar a idade, brincam uns com os outros, discretamente, com pisadelas quase imperceptíveis. O cortejo sai da Capela e de novo cruza a nave central em direcção à sacristia, onde ultimarão os trajes com que D. Manuel Clemente e D. José Policarpo se vão apresentar à assembleia.
"O Papa Francisco dispensou-me de ser pastor"
O cheiro a incenso adensa-se e o cortejo litúrgico faz, enfim, o seu percurso até ao presbitério. Todos tomam os seus lugares, até os turistas que continuam a entrar, em hordas, pelas portas laterais da igreja. Seguem, chinelando, determinados a ver alguma coisa, mas as centenas de pessoas que ali se reúnem entopem os ângulos de visão e acabam por desistir, virando costas à celebração.

É a voz inconfundível de D. José Policarpo que quebra o compasso de silêncio que se fez sentir, por momentos. “O Papa Francisco dispensou-me de ser pastor, mas não me dispensou da solicitude de todas as igrejas”, profere o patriarca emérito. Saúda o seu sucessor, que, garante, além de bom amigo, vai ser um bom representante do Patriarcado.
Segue-se a leitura do mandato apostólico, que nomeia patriarca D. Manuel Clemente, por D. Rino Passigato, o núncio apostólico que representa a Santa Sé, como embaixador do Papa.

É lavrada a acta da tomada de posse e D. Manuel Clemente é agora oficialmente o novo patriarca de Lisboa. Senta-se na cátedra, antes ocupada por D. José Policarpo e recebe, das mãos do seu antecessor, o símbolo máximo da autoridade bispal, o báculo pastoral. A Sé Patriarcal enche-se de palmas.
"Quem se casou?"
É a vez do cónego Carlos Paes, deão da Sé, proferir uma saudação ao patriarca D. Manuel III, recordando que, já noutros tempos, os primeiros patriarcas do século XVIII, também suportaram situações difíceis com o Terramoto de 1755 e a perseguição dos jesuítas. É um prenúncio para os “tempos difíceis” do século XXI que o novo patriarca terá também de enfrentar.

Após a oração da Hora Intermédia, D. Manuel Clemente fala, por fim, a todos quantos esperaram ouvi-lo ao longo da manhã. Espontaneidade e um toque de sentido de humor pontuam-lhe o discurso, fluido e sentido. Saúda a hierarquia eclesiástica que tem à sua frente e, por fim, lança umas palavras para os leigos que enchem a igreja. Recorda os construtores medievais da catedral, também eles leigos, que não construíram apenas um templo, mas um “corpo com os braços abertos”, referindo-se às naves e ao transepto, em forma de cruz. “A Igreja de Lisboa é a única possuidora de tudo, uma posse que significa entrega e serviço”, refere D. Manuel III, numa alusão ao papel unificador da Igreja, em tempos de instabilidade.
A cerimónia prossegue com a Hora Intermédia, tempo de oração da Liturgia das Horas. Canta-se o Te Deum com fervor religioso. O ritual está quase no fim. D. Manuel dá a sua bênção final, despedindo-se.
À porta, o tapete vermelho aguarda a passagem dos altos dignitários. Uma turista pergunta, levada pela curiosidade do aparato: “Quem se casou?”

7.07.2013

“Para onde vamos? Não sei”


Em http://www.publico.pt/sociedade/noticia/para-onde-vamos-nao-sei-1598597#/0

Em dia de greve geral, Lisboa assistiu a manifestações organizadas pelas centrais sindicais mas marcou passo na adesão do povo, que se acumulou, em horas de ponta, nas paragens dos autocarros.



O 760 não vai cheio, mas avança em marcha lenta na direcção da Praça da Figueira. Um passageiro grita contra a polícia que aparece em pequenos grupos, do outro lado do vidro, na Rua da Prata. Outros passageiros elevam a voz contra a austeridade, contra as barrigas de alguns agentes da PSP, contra o trânsito, contra a greve, ou a favor dela.
"A política discute-se no Parlamento, não no autocarro", replica uma passageira da Carris, queixando-se de dores de cabeça. O autocarro chega por fim à Praça da Figueira, onde já se avistam as bandeiras vermelhas da CGTP, que se dirigem para o Rossio.
A concentração não cede ao calor e ao sol ardente que queima a pele dos manifestantes. Os jovens das juventudes partidárias recorrem aos protectores solares, os mais velhos preocupam-se com a protecção das cabeças.
"Deixa estar que já te arranjo um barrete", ouve-se dizer entre a multidão que se prepara para subir a colina do Chiado na direcção de São Bento.
Chegam cada vez mais, de bicicleta, a pé, nos autocarros que circulam. Alguns de táxi. Bandeiras, cartazes e folhetos proliferam no Rossio.
As palavras de ordem saem com mais força pelas bocas dos precários: "Fora, fora já daqui. A fome, a miséria e o FMI." Outras relembram a luta internacional, o Brasil e a Turquia.
Sindicatos, associações e alguns particulares circulam, esperando o momento de saída. Alguns afinam gargantas com cervejas frescas, outros, sentados na borda da fonte, sentem os borrifos frescos da água na pele.
Os turistas, curiosos, tiram fotografias, aproximando-se. Há quem vendanougat, há quem se disfarce de Zé Povinho, quem pose para as inúmeras câmaras com suas faixas e cartazes reivindicativos.
São 14h50 e Arménio Carlos acaba de chegar. Daqui a uns minutos partirá o protesto, colina a cima, rumo à Assembleia da República. Gritam: "Só mais um empurrão e o Governo vai ao chão." E avançam, empurrando o protesto, gritando, acreditando, tendo como adversário principal o sol ardente.
Um “cartão vermelho” ao Governo
Junto ao Ministério das Finanças, paredes meias com a paralisada estação dos barcos do Terreiro do Paço, reúnem-se os sindicatos e associações da UGT.
As bandeiras esvoaçam, gigantes, com o vento que se faz sentir junto ao rio. Aqui não está tanto calor como no Rossio, mas a música, ruidosa, apela à intervenção. Há quem espere o secretário-geral, Carlos Silva, para que este discurse, alto e bom som para todos ouvirem. Dali não arredarão pé, porque esta foi a concertação a que chegou a UGT, por isso, não haverá qualquer marcha até à Assembleia da República.
José Batista da Silva, de 56 anos, de T-shirt vermelha, representa os profissionais dos Correios e veio, nesta tarde de quinta-feira, juntar a sua voz às dos restantes manifestantes: “É um crime nacional o Governo estar a vender uma empresa como esta, que é uma das melhores empresas de correios do mundo”, conta o funcionário ao PÚBLICO. Trabalha há 30 anos nos CTT e sente-se revoltado com a potencial privatização da empresa, quando esta dá “tanto lucro ao Estado”. Está esperançado que o Governo oiça o protesto da UGT, bem como a revolta generalizada do país que ficou, em parte, paralisado devido à greve geral.
José Batista da Silva diz que os resultados da greve representam uma “amostragem de um cartão vermelho ao Governo” e espera que o primeiro-ministro reconsidere as medidas que tem imposto nos últimos tempos, porque se não reconsiderar, “o povo, nas próximas eleições, irá, historicamente, dar-lhe uma derrota como nunca viu”. Por hoje, vêm tentar incomodar Vítor Gaspar à porta do seu ministério: “Nós preferimos vir aqui fazer barulho em frente ao senhor silencioso, para ver se ele nos consegue ouvir. Mas acho que o ministro não vai ouvir ninguém porque além de ser um senhor silencioso é muito teimoso também.”
"Não precisamos de líderes"
Aos pés da Assembleia da República, o clima, embora quente, está sereno. A CGTP proferiu o seu discurso, como de habitual, e dispersou, também como de habitual, finda a intervenção de Arménio Carlos.
Nesta tarde de quinta-feira, São Bento parece uma amostra de “povo pouco interventivo”, no dizer de uma empregada brasileira de uma pastelaria nas cercanias do Parlamento. A empregada insiste que a turba que passou para cima “não é nada”, quando se compara com os protestos que estão a passar-se no Brasil há mais de duas semanas.
Mas no cenário habitual dos manifestantes que permanecem por ali, encostados a muros e sentados na calçada, nem tudo está assim tão calmo. Há um homem a agitar uma bandeira preta com uma letra “a” branca, que parece convidar os manifestantes, algo apáticos, para uma marcha rua de São Bento acima. Um grupo de jovens toca vários instrumentos de percussão, num ritmo que faz lembrar o samba carioca. São as expressões graves dos músicos e do homem que agita a bandeira que parecem convencer os que por ali ficaram, depois do desembocar da manifestação da CGTP, a seguir o protesto improvisado.
As pessoas começam a engrossar a fileira, que já escorre pela rua de São Bento, ao som dos apitos e dos tambores. O “maestro” do movimento caminha, de marcha atrás, dando indicações aos músicos. “Para onde vamos?”, pergunta alguém, no meio da marcha. “Não sei” é a resposta que se ouve um pouco por todo o lado. “Não faço ideia para onde vamos, como não acontecia nada ali no Parlamento, resolvemos seguir este protesto”. Porquê? “Porque sou professora.” E está tudo dito.
Ruídos fortes denunciam que os ânimos se começam a exaltar. Alguns dos manifestantes, que envergam as máscaras ou que tapam as caras, começam a pontapear uma vedação metálica que cobre um edifício demolido na rua de São Bento. “A rua é nossa”, começa a gritar-se.
O protesto está quase a chegar ao Largo do Rato. O homem da bandeira preta chama-se Ruben e tem 28 anos. Encabeça o colectivo, embora diga, de modo entusiasmado, entre palavras de ordem, que não existem líderes naquele movimento. “Somos homens e mulheres de uma esquerda não partidária”, informa Ruben. Pertence ao Colectivo Acção Antifascista. Assumem-se como anarquistas e anticapitalistas. Admite que o protesto não é completamente espontâneo porque já tinha sido pensado no dia anterior pelo Colectivo. “Isto não está autorizado, queremos desafiar as autoridades”, revela Ruben.
Querem chamar a atenção para um país que não precisa de ser governado: “Nós não queremos substituir o Passos Coelho pelo Jerónimo de Sousa. Não precisamos de líderes”, reforça. O objectivo da marcha, conta, é virar à esquerda, na Avenida Álvares Cabral, e voltar à Assembleia. Mas não é isso que sucede, uma vez chegados ao Rato. O grupo segue em frente pela rua D. João V, na direcção das Amoreiras. Durante o trajecto, Ana Farinhas, de 32 anos, também não faz ideia para onde o grupo segue, mas garante que o seguirá até lhe doerem as pernas. É bolseira de Biologia na Faculdade de Ciências e está ali para protestar em nome de todos os bolseiros: “O que nos revolta são os nossos contratos inexistentes e a exclusividade, quando não temos sequer contrato”, explica Ana, que não está muito preocupada com o que possa acontecer na rua, caso a polícia intervenha.
Três polícias de trânsito seguem o protesto de mota, enquanto se entoam palavras de ordem e, por um momento, se cantam os parabéns a um manifestante. São cerca de duas centenas de pessoas, sem bandeiras sindicais, que seguem um grupo de músicos e um homem que agita uma bandeira preta.

Por trás das famosas máscaras que têm representado os milhares de protestos por todo o mundo, os jovens convidam os automobilistas, com quem se cruzam, a sair dos carros e a juntarem-se-lhes. São quase seis da tarde, e nas Amoreiras, os transeuntes olham, atónitos para a marcha que interrompe o trânsito, na direcção da Ponte 25 de Abril. “Para onde vamos?”, pergunta, de novo, alguém. “Não sei”, respondem. A dúvida subsiste. Ter-se-á o homem da bandeira preta enganado no caminho de volta para a Assembleia?
27.06.2013

Graffiti só com licença e depois de as câmaras aprovarem projectos


em http://www.publico.pt/portugal/jornal/graffiti-so-com-licenca-e-depois-de-as-camaras-aprovarem-projectos-26732129


"A liberdade de expressão vai ser metida num saco", desabafa "Nomen", nome de guerra de um dos writers mais polémicos dos graffiti portugueses. É esta a reacção à nova proposta de lei do Governo que visa punir fortemente os autores de graffiti e de afixações de cartazes e autocolantes, por exemplo. Caso a lei seja aprovada, quem quiser fazer um graffito ou afixar um cartaz numa parede, terá de pedir previamente uma licença à câmara municipal.
No requerimento à câmara, deve apresentar um projecto do que pretende desenhar (ou do cartaz que pretende afixar), bem como a "autorização expressa e documentada do proprietário" do edifício. De resto, outras formas de alteração de paredes, muros e pavimentos, como a picotagem, são visadas no projecto. Bem como as intervenções em transportes públicos e mobiliário urbano.
A proposta prevê sanções para quem incorrer em contra-ordenações leves, graves e muito graves (sendo estas definidas em função do grau de irreversibilidade da remoção dos danos provocados). No futuro, lê-se na proposta, quem for apanhado a "descaracterizar", "alterar", "manchar" ou "conspurcar" bens móveis ou imóveis, poderá ter de pagar multas entre os 100 euros e os 25 mil euros, arriscando-se ainda a ver o seu material apreendido pelo Estado. Os custos de remoção de pichagens e outras formas de alteração de superfícies serão suportados pelo transgressor.

O diploma sublinha que todas as formas de alteração legalmente permitidas, nomeadamente a propaganda política, são reguladas por outros instrumentos legais, pelo que não são abrangidos por estas normas.
"Nomen", autor dos mais conhecidos murais políticos de Campolide, onde são retratadas as figuras de Passos Coelho, Paulo Portas e Angela Merkel, diz que nunca pede autorização para pintar um muro, em Lisboa, exceptuando quando se trata de encomendas particulares. No caso específico daquela zona da cidade, explica que "existe um litígio nesse espaço entre o seu proprietário e a câmara e ninguém sabe muito bem o que fazer com aquele pedaço de muro". Uma vez que não são apresentadas queixas, desde 1995 que os writerstomam o espaço "como deles e, graças à enorme qualidade dos murais, autoridades e polícia fecham os olhos".
Existe um "código de ética" entre os writers, continua. "Normalmente, só se pinta por cima quando a obra já é antiga, riscada ou está em fase de erosão". Mas, ali, só pinta "quem pinta realmente bem, é quase como um private clubde writers de topo", acrescenta. Com as propostas do Governo, diz que muitos artistas, tomados pela raiva, passarão a executar graffiti "rápidos", "desfigurativos", sem qualidade. "Só os projectos aprovados poderão ser pintados, e não ideias de revolução, força, ou de natureza política", teme owriter, que tem insistido no carácter interventivo dos seus trabalhos "ilegais".
Para o antropólogo Ricardo Campos, cuja área de especialização é a arte urbana na sociedade contemporânea, os graffiti de Campolide são "bons exemplos de cidades que se querem criativas, dinâmicas e democráticas, que convivem com novas expressões artísticas emergentes e com a crítica popular".

Arte ou vandalismo?

O antropólogo recusa o argumento, expresso na proposta de lei do Governo, de que este tipo de actividades se possa associar a um "sentimento de insegurança das populações": "Não me parece que o agora famoso mural retratando o primeiro-ministro e a chanceler Angela Merkel cause alguma ansiedade ou tremor entre os vizinhos", diz.
Ricardo Campos questiona ainda a forma como a lei coloca "sob uma mesma categoria uma tão vasta gama de expressões, que incluem desde o simples tagao stencil artístico ou ao mural politizado". E alerta para a dimensão da "liberdade de expressão que deve ser tida em conta na vida democrática das cidades e que passa, também, pela manifestação nos muros". Liberdade de expressão que, de acordo com "Nomen", já é limitada. Dá um exemplo: o seu mais recente mural político em Campolide, em que caricaturava o ex-ministro Miguel Relvas, foi coberto com tinta preta, de um dia para o outro, há apenas umas semanas: "Acho que foi um acto de censura, nítida até de mais."
Segundo o comunicado do Ministério da Administração Interna (MAI), da semana passada, o ministro Miguel Macedo sublinhou que o Governo não pretende "confundir este tipo de actividades com arte que se realiza também em espaço público, em muitos casos, em espaços disponibilizados para o efeito".
E já vão sendo alguns. Em Lisboa, por exemplo, acontece com os espaços tutelados pela Galeria de Arte Urbana (GAU), afecta à Divisão do Património Cultural da CML, onde é permitida e impulsionada a actividade degraffitiwriters. Criada em 2009, a GAU tem como missão promover os "discursos plásticos presentes na cidade, dentro de um quadro autorizado", lê-se no seu site, estimula a "destrinça entre as obras efectuadas nesse âmbito e os actos de vandalismo, gestos agressores de bens patrimoniais". Contactada pelo PÚBLICO, a GAU diz não estar ainda "a par" da nova proposta de lei.
São conhecidas as intervenções da GAU nos painéis da Calçada da Glória e no Largo da Oliveirinha. Já o mural na zona de Campolide/Amoreiras não é um dos espaços tutelados pela GAU, pelo que, no futuro, pode vir a ser alvo de fiscalização municipal.
Já em Agosto de 2012 o ministro da Administração Interna Miguel Macedo anunciava que o Governo estava a preparar legislação para combater "actos de vandalismo", nos quais se inserem os graffiti. A nova proposta vem colmatar o vazio legal, ou pelo menos a indefinição sancionatória de actos de vandalização do património, de que existe apenas referência no Código Penal português, estabelecendo-se penas de prisão para "quem destruir, no todo ou em parte, danificar, desfigurar ou tornar não utilizável coisa alheia" - como espaços monumentalizados, de culto religioso ou de valor científico, artístico e histórico.
Ainda que as penas previstas variem entre um a 15 anos de prisão, o Código Penal ressalva que "o procedimento criminal depende de queixa".

24.06.2013


A vida é uma peça de teatro que não precisa de ensaios

A frase é de Charlie Chaplin, mas adequa-se na perfeição aos refugiados forçados a improvisar novos rumos para as suas vidas. No Centro de Acolhimento da Bobadela, em Loures, o primeiro passo para a integração dá-se com a aprendizagem do português. Com aulas. E através do teatro.
Do outro lado da recepção, espreita um senhor de pele morena e cabelo grisalho. Anda na casa dos 60 anos e há algo no seu olhar que denuncia uma origem árabe. Diz um "bom dia" em perfeito português, atende-nos com a cordialidade esperada de um recepcionista. Segundos depois, endurece a expressão quando lhe perguntamos pela casa de banho. "Não há. A troika fechou", diz, com o canto do sorriso a aparecer. 
É assim que se é recebido no Centro de Acolhimento para os Refugiados (CAR), na Bobadela, Loures. Logo à porta da instituição, o homem que atende o telefone e acolhe os visitantes é o rosto que representa o Conselho Português para os Refugiados (CPR). Não quer que usemos o seu nome - Valentino parece-lhe melhor. Aos 66 anos, vive entre pessoas simpáticas e mulheres bonitas de todas as nacionalidades. Delicia-se com cigarros e conversas. Envia beijinhos pelo ar às colegas que saem do trabalho. Aprende todos os dias mais uma palavra de português.
Valentino nasceu na Palestina, em 1947. Um ano depois, o conflito com Israel desviou-o por 48 horas a si, e à sua família, para território sírio. "Era por uma questão de segurança", confidencia o recepcionista.
As 48 horas de abrigo na Síria transformaram-se em longas décadas de refúgio e Valentino viu-se a braços com uma pátria que não era sua, mas onde acabou por construir uma vida. Cedo percebeu que a ditadura de Assad não era compatível com o seu temperamento. "Tinha uma língua muito comprida. Acabei por ser perseguido durante mais de 25 anos pelos serviços secretos sírios", explica.
Foi há oito anos que chegou a Portugal. A situação política em que estava envolvido não podia continuar e agarrou a primeira oportunidade que conseguiu. "Escondi-me num barco", conta com um encolher de ombros e uma ligeira mágoa de quem recorda os dez dias difíceis que viveu escondido, em alto mar. O barco tinha como direcção Lisboa. "Era o único destino que estava na minha mão. E eu aproveitei-o."
Três meses depois de entrar no CPR, Valentino apercebe-se do novo projecto que surgia às mãos de Isabel Galvão, a sua professora de Português: um grupo de teatro para refugiados. "Eu gosto dessas coisas. Pedi à professora e ao resto do grupo e todos disseram que sim", recorda.
"A vida é uma peça de teatro que não precisa de ensaios", lança-nos o recepcionista-actor, após um segundo de silêncio. A frase é de Charlie Chaplin, diz-nos, mas adequa-se na perfeição a um refugiado que é forçado a improvisar um novo rumo para a sua vida. Com a família longe, também ela agora duplamente refugiada, num campo libanês, devido à guerra na Síria, Valentino encontrou no RefugiActo a energia de que necessita para distribuir sorrisos na recepção do CAR. "Não consegue imaginar como é o ambiente do nosso grupo de teatro. Tratamo-nos uns aos outros como família. É a minha família."
"Portugal é bom"
Isabel Galvão surge pela porta, em passo acelerado. É a mulher que ensina Português a todos quantos passam pelo CAR, mal chegam a Portugal. De analfabetos a licenciados, todos se sentam, à vez, à volta da grande mesa, na sala de formação.
Vamos ao seu encontro, neste mesmo palco, meia hora depois do início da aula com a turma D. São sete os alunos: cinco homens e duas mulheres. Eritreia, Guiné-Conacri, Serra Leoa, Rússia e Afeganistão são as nacionalidades por trás do português, pausado e grave, que flui das bocas dos alunos. Fala-se de liberdade, da falta dela em Portugal durante o Estado Novo, numa altura em que também os portugueses procuraram refúgio noutros países.
Eugenio, de pele clara, barba e rabo-de-cavalo, escuta com atenção as explicações da professora. Tem ao seu redor uma criança de cabelo muito louro, que ciranda pela sala em busca de entretenimento. Além do diálogo entre professora e alunos, os intervalos de silêncio são preenchidos com o doce cantarolar da criança, que já nasceu em Portugal mas não fala português. O pai, russo, fugido por motivos políticos do seu país, tem medo que o filho não aprenda a língua materna e, por isso, não o colocou na creche, ali mesmo ao lado, onde as crianças aprendem português umas com as outras, como por magia.
Sowya fugiu do Afeganistão, há dez anos, com os dois filhos, ainda pequenos, pela mão. Corria o ano de 2003 e a guerra deixava marcas profundas em solo afegão. Passou sete anos na Ucrânia, mas o destino haveria de fazê-la rumar a terras lusas. Não quer regressar, diz que está bem onde está. "Portugal é bom", diz Sowya, embora a frase pertença, de um modo geral, a todos os refugiados que vêem o país que os acolheu como a sua salvação.
Hedasy, sentada ao lado de Sowya, parece ter aprendido a falar português com uma pronúncia feita de sorrisos. São 32 anos de uma tristeza camuflada, de quem saiu da Eritreia deixando para trás a sua maior riqueza: os dois filhos. Não os vê há sete anos, tempo durante o qual passou, juntamente com Solomon, o marido, sentado à sua esquerda, uma aventura amarga, fugindo para o Sudão, Líbia e Tunísia.
Do outro lado da mesa sentam-se Maxwell, da Serra Leoa, Ousmane, da Guiné-Conacri, e Siraj, da Eritreia. Têm os cadernos abertos e impecavelmente preenchidos de palavras portuguesas. Maxwell não quer falar. Apenas sorri, com vergonha ou com medo.
Ousmane, de 22 anos, é o que mais gosta de escrever, segreda a professora Isabel. "Fica nervoso quando fala", explica-nos em surdina. Mas quer falar. Falar de liberdade, da sua terra, da família que ficou para trás. As pausas no discurso confundem-se num misto de ansiedade e de procura por vocábulos portugueses. Ou talvez seja só a emoção. A professora dá-lhe permissão que se expresse em francês e logo Ousmane reinicia a narrativa: "Tout a commencé quand ma famille...". A história desenrola-se, penosa, para o jovem, que ainda hoje não sabe onde estão muitos dos seus familiares.
Por fim, o terceiro eritreu da sala: Siraj. O percurso foi semelhante ao de Solomon e Hedasy. Primeiro o Sudão, depois a Líbia, onde esteve durante cinco anos, três dos quais preso por não ter documentação. Mas os ventos da Primavera Árabe haveriam de o empurrar para a Tunísia, onde esteve cerca de oito meses, refugiado no Chucha Camp, sob as mais terríveis condições humanas. Portugal é, desde há um ano e meio, a sua nova casa - o seu alívio. "Sem liberdade não há vida", conclui Siraj, que desde os 24 anos tem fugido ao seu encontro.

Isabel Galvão só tem 15 minutos para a entrevista. A conversa flui: as preocupações iniciais, os principais desafios, a abordagem da integração dos refugiados na sociedade portuguesa, exemplos de sucesso e de insucesso. Tudo é relativo na aprendizagem da língua portuguesa. Há quem seja mais esforçado e compreenda que o idioma é um passaporte para o emprego; há quem passe um período de adaptação difícil, tratando de pontas soltas que parecem não ter fim. E, depois, há os que não dominam sequer o alfabeto latino, os que não são alfabetizados e os outros, os que chegam com habilitações superiores e que nem na construção civil conseguem trabalho.
Os 15 minutos já se esgotaram, mas ainda falta uma pergunta: "E o RefugiActo?". Os olhos da professora brilham. Descreve os pormenores da fundação do grupo de teatro do CPR. Foi em 2004 que Isabel Galvão decidiu dramatizar alguns dos testemunhos mais caricatos dos seus alunos refugiados. "Era um tempo em que as pessoas contavam muitas peripécias do que se passava no SEF [Serviço de Estrangeiros e Fronteiras], nos centros de saúde, na própria construção civil, e eu pensava como era engraçado nós dramatizarmos isto e darmos a conhecer aos outros", relembra.
Encenaram os primeiros sketches, levaram-nos à cena e fizeram rir uma plateia constituída por outros refugiados, amigos e técnicos do CPR. "O objectivo nem era fazer um grupo de teatro", diz, com um encolher de ombros, "era nós participarmos e apresentarmos umas brincadeiras numa festa do fim do ano". Tarde de mais - o vício instalara-se. "Queríamos continuar. Foi tão enriquecedor para todos que começámos logo a pensar criar um nome."
Começou assim a consolidar-se o RefugiActo, um grupo de teatro amador, multicultural, que foi sofrendo remodelações constantes, à medida que uns actores iam saindo e outros entrando. Os projectos somaram-se, sempre em torno da temática dos refugiados. Os dois principais, Abrigo e A Pequena Carlota, continuam a ser levados à cena, sempre que recebem convites de escolas e outras organizações.
Hoje, o grupo é formado por três portuguesas e cerca de 20 elementos de 12, 13 nacionalidades diferentes. Quem pede para entrar tem como único requisito a língua, uma só, o português. É esse, afinal, o propósito do grupo: reforçar a aprendizagem da língua portuguesa de uma forma lúdica. Ou então é muito mais do que isso: "É ali que muitas vezes se fala dos problemas, de uma maneira diferente com que se fala com um técnico", diz Isabel Galvão, com a certeza de que o RefugiActo é como uma catarse para os seus elementos.
"Um refugiado, muitas vezes, não pertence aqui - quer pertencer, mas ainda não pertence - e também, de alguma maneira, não pertence ao seu país, porque teve de fugir dele. Há uma identidade que falta e essa pertença a um grupo é muito importante."

20.06.2013 - Dia Mundial do Refugiado

Para os alunos do 6.º ano da Quinta de Marrocos o exame de Português era fácil

O toque da campainha ecoa na Escola Básica Integrada Quinta de Marrocos, em Benfica, Lisboa. Do lado exterior ao gradeamento, juntam-se pais, tios e avós, na expectativa de verem chegar os seus pequenos estudantes de 6.º ano, com um estojo na mão e um sorriso de alívio. É dia de exame de Português.
Telma Rosa estranha a filha não ter saído ao toque dos 90 minutos: “Costuma ser muito despachada, mas não estou muito preocupada, preocupo-me mais com o de Matemática.” Os seus olhos continuam fixos no pátio da escola.
Começam a chegar os que conseguiram cumprir o tempo regulamentar. São meninos e meninas de 11 e 12 anos, que fazem pela primeira vez um exame na vida. As provas de aferição, extintas, não contavam para a avaliação, pelo que este é um momento importante para os alunos do 6.º ano. Mariana Ganhão, de 12 anos, revela: “Estava nervosa no início, mas depois quando comecei a fazer passou-me o nervosismo. Pensava que fosse mais difícil. Saiu tudo o que eu tinha estudado, fui bem preparada.”
Francisco Pires, de 11 anos, tentou não estudar na véspera porque “não resulta”, mas foi bem preparado, à semelhança de Mariana. “Foram muitas horas de estudo, sobretudo ao longo da última semana. A stôra preparou-nos para o exame e acho que nos preparou bem”, diz com serenidade. O mais difícil? Não se recorda de nada que possa ter sido difícil no exame, talvez a composição, embora fácil, tenha custado um bocadinho mais por só gostar de escrever “mais ou menos”. “O tema era imaginarmos que estávamos a ler um texto e que depois encontrávamos a principal personagem na biblioteca”, conta Francisco.
Entre alunos e familiares, o burburinho cresce à porta da Quinta de Marrocos. Todos comentam o exame e Eduardo Correia, de 12 anos, é um deles. Traz na mão uma folha de rascunho em branco, carimbada pela escola. “Por acaso até correu melhor do que estava à espera. Matéria simples, as perguntas eram poucas, era muito fácil.”
Cláudia Silva, 29 anos, é uma mãe diferente. Fala com o filho, Fábio Madeira, de 12 anos, através de gestos. Diz-nos que o exame correu bem e que Fábio fez a prova, à semelhança dos seus seis colegas surdos de turma, numa sala especial. A escola integra uma das maiores comunidades de alunos surdos de Lisboa.
São 11h30, mas não se ouve o toque do fim da tolerância. Alguém recorda que se dão mais cinco minutos extra para o preenchimento do cabeçalho do exame. Há pais mais nervosos do que os filhos. Telma Rosa continua a perscrutar o horizonte. Maria Branco destaca-se, por fim, entre os colegas que a acompanham a cruzar o pátio até à entrada da escola. Tem cerca de 1,70 metros e apenas 13 anos. Telma respira de alívio. Maria confirma o que já todos disseram antes. “Não foi nada difícil. Saiu só um bocadinho da matéria que foi dada ao longo do ano. Mas também porque parte já vinha do 5.º ano”, explica Maria.
Afinal a despachada Maria podia ter saído aos 90 minutos, se não fosse a composição. “O mais difícil foi a parte da escrita, porque era para escrever até 200 palavras, mas depois tinha de se contar as palavras todas! Por causa disso acabei por ficar mais cinco minutos depois do tempo, e por isso fiquei mais meia hora… Mas aproveitei para rever o texto”, revela, com um suspiro.
Exame antecipado, exame abençoado
Todos são unânimes no que toca à antecipação do exame nacional de Matemática para dia 26. É uma boa ideia, a melhor que se podia ter tido, de acordo com os pais que falaram com o PÚBLICO, à porta da escola. Adiar só poderia trazer mais inconvenientes para as famílias que já têm as suas vidas decididas a partir de 27 de Junho. Francisco Pires, 11 anos, dá a sua opinião: “Acho muito bem, porque há pessoas que já podem ter marcado férias. Eu, por exemplo, vou para os Açores no dia 28. Acho que se adiassem ia irritar muita gente.”
Mas não só, adiar o exame poderia também influir no estado psicológico de muitos alunos. “Os miúdos já estão mais do que saturados do ano lectivo e, parecendo que não, isto para eles é enervante, tal qual é para nós, pais. Eles não vão aprender mais do que já aprenderam. É preferível ser antes do que depois”, desabafa a mãe de Mariana Ganhão.
Quem não tem ainda a certeza se a antecipação da data é benéfica para o seu filho é Cláudia Silva. Não por ser surdo, mas por Fábio pertencer a uma turma que ficou sem professora de Matemática entre Fevereiro e Maio. “Desde o Carnaval que ele praticamente não tem aulas. A professora deu uma queda e não puseram ninguém a substituir. Foi feito um requerimento para a DREL, mas só em Maio é que puseram alguém a dar apoio a Matemática”, conta Cláudia com apreensão. “Ou seja, este exame [da semana que vem] é crucial. Se ele tirar negativa, está sujeito a chumbar o ano por um erro. E provavelmente será a turma toda dele também a chumbar. Uma turma especial de alunos surdos.”

20.06.2013

Gabriela e Lisboa

Recusa o rótulo de menina-prodígio, mas assume uma certa hiperatividade que mistura com rebeldia e uma dose considerável de curiosidade. Aos 59 anos, Gabriela Carvalho, olisipógrafa, acumula aulas, tertúlias, livros e experiências que se resumem no sorriso franco de uma mulher que é, acima de tudo, filha, mãe e avó.

As paredes do escritório de Gabriela Carvalho quase não se vislumbram. Estão forradas de estantes com livros que parecem ter vida e que sussurram histórias intermináveis do que testemunharam ao longo de muitos anos. Uma atividade fervilhante de escrita e pesquisas, horas infindáveis de trabalho, discussões, ideias e resultados. A preencher o restante branco das paredes estão alguns quadros, a maior parte retratando Lisboa, um ou outro da autoria de Gabriela. O espaço é uma confluência de saberes, até porque a olisipógrafa o divide, ocasionalmente, com a neta, que ali costuma fazer os seus deveres escolares.
Gabriela é um misto de coisas, mas é, acima de tudo, uma mulher de família, com a mãe junto de si, e a filha, o genro e a neta no andar de baixo: “Somos quatro patas, a minha mãe, eu, a minha filha e a minha neta”, explica. Aliás, a casa onde vive, nos Anjos, é ela própria um baluarte de memórias que remontam à sua infância bem lisboeta.
Aprendeu a ler aos quatro anos com a mãe, Maria Helena, na Cartilha João de Deus. E aos cinco, foi para a Escola n.º 26 dos Anjos. A tradição haveria de repetir-se com a filha, Eliana, e com a neta, Bruna.
Descreve-se, em menina, com facilidade: “Roliça, engraçada, com feitio de Carneiro, cabelos compridos, uma trança muito grande”. Talvez por ser filha única, arranjou formas de compensar a falta de irmãos. Andava sempre atrás dos velhotes para os ajudar a atravessar a rua e adorava ver-se rodeada de crianças mais pequenas do que ela, “tinha a mania que era a mãe de todos”, diz, sorrindo. Desses tempos, recorda-se sobretudo da professora da primeira classe e de como se sentiu preocupada por aquele ser o último ano em que iria dar aulas: “Para mim, ela representava a descoberta do mundo”, diz com os olhos fixos na secretária.
Existe uma espontaneidade muito natural nos seus modos. Fala com as mãos, mas sobretudo com os olhos, que já não veem tão bem como em menina. É fácil imaginar Gabriela, nos finais dos anos 50, senhora de sua trança, em pontas dos pés e com as mãozitas agarradas à borda da mesa do bilhar do Café Gelo, no Rossio, vigiando atentamente o jogo entre o pai e os amigos. Recorda-se bem do aviso do progenitor para que se afastasse e de, segundos depois, não tendo obedecido, levar com uma bola de bilhar na testa.
Ainda hoje a rebeldia e a curiosidade são traços da sua personalidade. Em criança, aprendeu a ouvir as conversas dos adultos e soube desde o princípio o que era uma ditadura, até porque se falava de política em casa. A família era bastante crítica em relação ao governo de Salazar e por isso, Gabriela sempre teve um acompanhamento muito grande quer da parte do pai quer da mãe. “E havia coisas que, mesmo eu sendo pequenita, achava que eram anormais”, conta Gabriela.
Recorda o pai como um homem exigente, mas generoso. Trabalhava nos Serviços Médicos da CP e a sua posição de chefia permitiu-lhe ajudar vários funcionários da Companhia. Muitos outros haveriam de sair de Portugal, clandestinos, pelas suas mãos.

“Não estudava nada”

A Matemática foi uma das grandes paixões que Gabriela Carvalho partilhou com o pai, que sempre a habituou a fazer as contas de cabeça: “Hoje vou ao supermercado e sei quanto é que tenho de pagar no fim, com o cesto cheio”, diz. O pai costumava dar explicações às crianças do bairro, bem como a Gabriela, mas a mãe acabou logo com a brincadeira até porque “santos da casa não fazem milagres” e a partir daí estudou sempre sozinha.
Hoje é com a neta que partilha a paixão antiga pelos números e operações, na mesma secretária onde produz os seus livros e corrige os trabalhos dos seus alunos. Bruna, de 8 anos, tez trigueira e misto de timidez com marotice, diz da avó: “A Gabriela é muito boa professora. Gosto quando me ensina Inglês, mas sobretudo Matemática, que é a minha disciplina preferida”. De tal forma o humor é uma característica de família que até Bruna trata a avó pelo nome próprio, depois de uma brincadeira que ambas partilharam há uns anos. “Além disso, avó é a minha mãe. Eu sou a tia”, ironiza Gabriela, fitando a neta com olhos de orgulho.
Quando terminou a 4.ª classe, Gabriela fez o exame de admissão para prosseguir os estudos e foi admitida no Liceu Filipa de Lencastre, onde ficou até ao antigo 7.º ano, hoje equivalente ao 11.º. No entanto, aos 14 anos decidiu matricular-se no bacharelato em Psicologia, no Instituto Superior de Psicologia Aplicada (ISPA), onde podia entrar com o 5.º ano. E fez o liceu, o bacharelato e ainda um curso de Guia-Intérprete em dois anos.
Hoje seria impensável um jovem ter esta quantidade de habilitações aos 16 anos e a pergunta impõe-se: como é possível estudar tanto? “Não estudava nada”, responde entre risos, mas depois desmistifica o significado da expressão: “Arranjei capacidade para ouvir as pessoas e por isso só precisava de estar com atenção nas aulas e de fazer umas leituras em casa”.
Simultaneamente fez umas cadeiras de Ciências num colégio particular, até porque ainda estava muito indecisa quanto ao curso superior a seguir. Já no final do 7.º ano, um dia chegou a casa e disse aos pais que tinha tido um 20 no exame de Matemática. Perguntaram-lhe se afinal iria seguir aquela área, mas Gabriela respondeu de imediato: “Não, vou para História”. E com 16 anos entrou na Faculdade de Letras de Lisboa.
Esteve pouco mais de dois anos na faculdade, até que, em 1972, no ano em que mataram Ribeiro Santos, estudante de Direito, fez um discurso à frente de toda a gente, PIDE incluída. Depois, ficou proibida de fazer a matrícula na Universidade e teve de escolher um novo destino para estudar. Com Espanha fora da equação, Gabriela rumou a Paris com 19 anos, onde acabou por completar os estudos de Psicologia e onde conheceu o português com quem veio a casar. “Eu julgava que me cortavam as pernas, mas afinal deram-me asas para voar”, assegura Gabriela.
A Revolução dos Cravos trouxe-a e ao marido de volta a Lisboa, onde começou a ser guia-intérprete e a dar aulas no Instituto de Novas Profissões (INP). Mas havia uma ponta solta na vida de Gabriela Carvalho: a História, que ficara incompleta uns anos antes. Pediu que lhe fossem dadas equivalências, mas, vendo o seu pedido recusado, não desarmou e concorreu de novo à Faculdade de Letras de Lisboa, mesmo depois de ter tido a sua filha recentemente. Seguindo a sua máxima habitual, ‘não estudou nada’ e tirou 17, 18 e 20 nos exames de ingresso.
A História, a que já tinha aprendido e a que começava a ensinar, começou-a do princípio, em 1976, e terminou-a passados quatro anos. Depois do 25 de Abril, “o ambiente na Faculdade de Letras era ótimo”, recorda com um sorriso estampado no rosto. “Fazíamos trabalhos em casa uns dos outros. Éramos todos amigos.”

Um olhar diferente sobre o património

Gabriela admite ter uma mente hiperativa e um gosto notório pela arte de conversar: “Quando fazia camisolas de malha, costumava dizer à minha mãe que se a minha mão trabalhasse à velocidade da minha mente ficava ali com um armário cheio de camisolas”, brinca a historiadora. E talvez por ter desenvolvido desde cedo uma grande apetência para a comunicação, para a História e para as línguas, Gabriela não podia ter iniciado a sua carreira profissional de outro modo que não pelo Turismo.
Enquanto guia-intérprete, fazia essencialmente visitas em museus e monumentos e assim começou a cruzar conceitos e a olhar para o património de forma diferente. De tal modo influenciou outros guias-intérpretes, a quem deu formação, que muitos dizem existir um Museu Nacional de Arte Antiga ou um Mosteiro dos Jerónimos antes da Gabriela e depois da Gabriela. A justificação é dada pela própria: “O meu olhar sobre as coisas é diferente do dos guias”, explica. “Esses olhares são extremamente importantes quando descobrimos os símbolos que não são visíveis a toda a gente. Se não se faz a psicologia da História não se chega a lado nenhum”, conclui.
Sofia Fonseca, uma ex-aluna da Escola Superior de Hotelaria e Turismo do Estoril (ESHTE), recorda este olhar: “A Gabriela dá graça e leveza à palavra cultura, ela apaixona-nos. Consegue fazer uma síntese contagiante dos temas que aborda”.
E é a curiosidade incessante que a faz espreitar além de portas semicerradas em prédios pombalinos e meter conversa com os mais velhos dos bairros históricos, em busca de tradições e estórias do ‘antigamente’. “Ando sempre com o nariz metido nas coisas”, conta com olhar matreiro. “É uma atitude de vida.” E assim vai acumulando e sintetizando todo o conhecimento aprendido, com memória de elefante, ouvido aguçado, vontade contínua de aprender mais. E com esta atitude, a mulher, licenciada em Psicologia, Turismo e História, torna-se a mulher olisipógrafa.
Aliás, um olisipógrafo é, à semelhança do que Gabriela define, uma pessoa que estuda Lisboa ao longo de uma vida inteira, até “porque a cidade nunca está estudada”, afirma. É ter “um manancial de conhecimentos constantes que se vão enredando”, e esta parece ser a definição da própria Gabriela Carvalho, que conhece a História de Portugal e o património lisboeta como a palma da sua mão.
E para os leitores que não sabem o que é a Olisipografia, Gabriela ensina: “É o estudo da cidade de Olisipo, ou seja da cidade de Lisboa. Distingue-se das áreas de estudo de outras cidades porque foi uma palavra criada eruditamente pelos primeiros olisipógrafos (que não eram chamados assim no princípio do século XX) e que acabou por se transformar numa ciência”. E não é somente a história cronológica de Lisboa que surge associada a esta disciplina, mas também as perspectivas arqueológica, arquitetónica, geográfica, artística, sociológica, antropológica, entre outras.
E mais uma vez a palavra ‘património’ parece resumir todas essas vertentes, como se fosse produto de um emaranhado de conceitos multidisciplinares. A finalidade da Olisipografia é, em última instância, “educar as pessoas para que as coisas não se percam, para que se criem laços de pertença”, esclarece.
Gabriela levanta-se num ápice para ir em busca de um exemplo e desaparece por trás de uma porta. Regressa pouco depois com um pequeno pão duro embrulhado num papel branco como se fosse um rebuçado. Aquele objeto que tem na mão é património, afirma Gabriela. É o Pão de Santo António, que poucos lisboetas conhecem, mas que representa uma longa tradição ligada a superstições populares.
O pão, que é feito sem fermento para que dure muitos anos, geralmente é vendido à porta da Igreja de Santo António no dia 13 de junho. “Diz a tradição, que remonta aos finais do século XIX, que deve ser adquirido quando alguém se casa.” A tradição mandava ainda que eram necessários, além do pão, um saleiro, uma almotolia de azeite e duas placas de carvão. “São estas coisas que nos dão identidade”, refere.
O património há de ser sempre a sua ‘palavra’, aquela pela qual se debate todos os dias: “Já que existe uma coisa chamada Plano Nacional de Leitura, penso que também deveria haver um Plano Nacional do Património”, sugere Gabriela. “E o património não são só casas, monumentos e estátuas”, prossegue, “é a história da cidade, das pessoas, das suas vivências”, remata.
Esse processo de ‘educação’ em relação ao património é algo que a historiadora tem encetado ao longo de toda a sua experiência profissional, quer como professora universitária quer como Técnica Superior na Câmara Municipal de Lisboa (CML), onde desenvolveu, entre 1990 e 2008, uma quantidade inacreditável de projetos e cargos.

“Falar com as pessoas olho no olho”

Gabriela Carvalho entrou para a CML em 1990, por convite de Rui Godinho, o vereador da Reabilitação Urbana, que a foi buscar porque precisava de historiadores que se interessassem pelo património de Lisboa nos gabinetes técnicos locais. E convidou-a para ir trabalhar para o Bairro Alto, onde teria de realizar o levantamento do património histórico da zona. “Apaixonei-me pelo Bairro Alto e acabei por fazer vários projetos que não tinham nada a ver com o património”, conta a historiadora, como quem confessa uma traquinice de menina.
É por esta altura que o nome de Gabriela Carvalho começa a estar associado à Reabilitação Urbana, na cidade de Lisboa. Muito graças ao amigo de longa data, Filipe Lopes, arquiteto, urbanista e Diretor Municipal da CML, com quem montou uma associação ligada à temática da reabilitação. Foi o homem que a convidou para desempenhar o cargo de Delegada dos Projetos Comunitários da Reabilitação Urbana, função que exerceu entre 1991 e 2001: “O projeto do Bairro Alto acabou por ser um bom exemplo de reabilitação”, explica a historiadora. “Como eu falava cinco línguas, o Filipe pensou que eu era a pessoa indicada”, justifica.
Ao mesmo tempo foi responsável pelos Projetos de Pormenor do Bairro Alto, da Mouraria, de Alfama e da Madragoa, passando a pente fino todo o património histórico destes bairros.
Tempos depois, a historiadora e o próprio Diretor Municipal, Filipe Lopes, foram convidados para realizar uma peritagem do Conselho da Europa à Reabilitação Urbana Portuguesa: “Nessa altura, eu e o Filipe fomos considerados especialistas da Reabilitação Urbana no Conselho da Europa”, conta Gabriela, reforçando, com orgulho humorado, a palavra ‘especialistas’. Depois, começaram a chamá-los para irem a outros países ensinar a sua experiência: “Foi muito importante, acabei por viajar imenso. Fui a Malaca ajudar a montar o Museu do Mar e viajei pela Europa toda”, revela.
O século XXI traria mudanças à vida da historiadora, com a saída de Filipe Lopes da Direção Municipal da Reabilitação Urbana da CML. Entretanto, desde a vitória de João Soares nas Autárquicas de 1995 que Gabriela era sondada para ir para a Cultura. E, por isso, tratou de aviar malas e bagagens rumo a novos desafios, corria o ano de 2001.
Foi na Divisão de Divulgação e Comunicação Cultural, onde esteve entre 2003 e 2008, que Gabriela começou a envolver-se mais profundamente na sua missão de educar os lisboetas para o conhecimento e preservação do património. E resolveu criar um projeto pioneiro, impregnado de muita da sua habitual carolice: os Itinerários Temáticos Municipais, visitas guiadas por si nas várias zonas históricas da cidade, às quartas-feiras e aos sábados, projeto que durou cerca de cinco anos.
E fizesse frio ou calor, Gabriela deu início a uma faceta diferente da divulgação da Olisipografia, levando a população para as ruas: “Porque achava que as pessoas deviam conhecer a cidade”, explica. A sua vasta experiência como guia-intérprete e professora auxiliaram-na neste novo desafio: “Quando eu falo para o público que tenho, estou virada para eles, tenho sempre o património atrás de mim”, exemplifica. “Temos de falar com as pessoas olho no olho.”
Concebeu 53 itinerários, percorreu inúmeras freguesias e deu a conhecer a História e o Património de Lisboa a torrentes contínuas de curiosos. Hoje, o projeto permanece um imenso sucesso pelas mãos de outros técnicos da CML, que beberam da aprendizagem da olisipógrafa, e que não têm mãos a medir com tantas solicitações. “É uma forma de fazer serviço público”, afirma Gabriela, cujo livro Itinerários Temáticos de Lisboa continua a marcar presença nas livrarias e nos postos de venda de locais turísticos da capital.
Foi também através dos seus passeios por Lisboa que muitos dos seus participantes haveriam de aprender e ganhar motivação para se lançarem em projetos de animação turística. José Antunes, um dos sócios fundadores da empresa ‘Lisbon Walker’, que se dedica à organização de passeios históricos em Lisboa, desde 2005, foi um deles: “Na altura, conhecemos a Gabriela Carvalho e foi muito bom para o projeto porque ela deu-nos bastante força”, conta José.
Sofia Fonseca, ex-aluna, haveria de seguir um caminho semelhante ao fundar a empresa ‘A Fuga Perfeita’: “A Gabriela reforçou a minha vontade de desenvolver produtos temáticos como forma de melhor conhecer os lugares, as suas histórias e em particular Lisboa”, refere.
Hoje, afastada da CML por requisição na ESHTE há quatro anos, Gabriela está a pleno vapor na sua outra faceta que é ser professora. “Ainda tenho mais um ano de mobilidade, e embora o António Costa me queira lá, ainda quero ficar mais um ano na Universidade. Depois logo se vê”, diz com um encolher de ombros.

Aulas, tertúlias e livros

Como professora, Gabriela tem acumulado uma ampla experiência em áreas distintas: História da Arte, Arquitetura, Artes Visuais, Moda e Traje, Urbanismo e Cidade, Turismo e Reabilitação Urbana. Além de ter sido docente no INP, hoje leciona na ESHTE, mas também na Faculdade de Arquitetura da Universidade Técnica de Lisboa (FAUTL).
Diogo Trindade, ex-aluno de Design de Moda, da FAUTL, recorda com saudade a professora de História da Moda e do Traje, que lhe telefonou um dia a dar os parabéns por ter tido a melhor nota da turma, telefonema esse que o motivou a prosseguir os estudos numa época em que se sentia desiludido com o ensino em Portugal. Sofreu muitas influências da sua professora, mas “sobretudo de um ponto de vista humano”, confidencia o ex-estudante. “Permitiu-me tomar as melhores decisões para o decorrer da minha vida pessoal.”

Tendo tido um grande apoio técnico e pessoal por parte de Gabriela Carvalho para a realização do seu trabalho final de Mestrado, Diogo salienta ainda: “Mais do que ensinar, sempre se preocupou em nos estimular e acentuar as nossas próprias formas de conceber o mundo. Em pô-las em prática e acreditar na sua força, independentemente do resultado”, declara Diogo Trindade.
Outra das facetas de Gabriela Carvalho é a de moderadora de debates e tertúlias. Recentemente, completou mais um ciclo das Tertúlias de Outono do Castelo de São Jorge, reunindo dezenas de participantes curiosos em torno da história e do património de Lisboa.
Teresa Oliveira, gestora do Castelo, conheceu a olisipógrafa em 2002, na CML, mas foi só em 2010 que aprofundaram o contacto: “Indicaram-me o nome da Gabriela Carvalho como a pessoa indicada para poder comissariar um programa que queríamos desenvolver sobre património”, diz a gestora da Empresa de Gestão de Equipamentos e Animação Cultural (EGEAC), referindo-se às tertúlias. “A empatia, a admiração e a constante aprendizagem surgiram de imediato.”
Gabriela já modera tertúlias desde 1993 e, à semelhança da adesão encontrada com os Itinerários Temáticos, foi habituando os lisboetas às conversas sobre a sua cidade. O primeiro local foi um restaurante galego chamado ‘A Mó’: “Chegávamos a ter 120, 130 pessoas quando tinha capacidade para cem”, relembra Gabriela. Mais tarde, passou para o ‘Forno do Alfarrabista’, na Mouraria, onde as tertúlias tinham uma metodologia diferente: “Fazíamos ‘A palavra roubada ao pôr-do-sol’, às seis da tarde. Não tínhamos convidados. Eu lançava o tema e iam-me roubando a palavra”, recorda a historiadora. “Acabávamos por ter tertúlias de três horas”, enfatiza.
Mas para se ser olisipógrafo, não basta estudar Lisboa e contar as suas histórias em visitas guiadas, aulas e tertúlias: “Tem de se deixar obra escrita, senão fica tudo no ar”, assegura Gabriela. E assim, os livros empilham-se, pesados, em cima da secretária. Mais uma vez o ecletismo. Além dos livros esperados sobre Reabilitação Urbana e Turismo, Gabriela acrescenta à sua lista publicações como A Intimidade do Tempo, um ensaio em prosa poética ‘surrealista’ sobre a história de Lisboa, e dois ou três roteiros gastronómicos que fogem da temática olisipográfica, até porque Gabriela é uma conhecedora nata da enogastronomia portuguesa. Mais surpreendente é Caixinha de Memórias, um livro infantil de pequenos contos, dedicado à filha, Eliana.
Tem ainda vários projetos em carteira, entre os quais Percursos pelas Paixões de Lisboa, livro a sair brevemente sobre restaurantes, gastronomia, locais e atividades de lazer ao longo da história da capital.
Gabriela Carvalho colaborou ainda na realização do livro ‘A Praça em Portugal’, ao qual foi atribuído o Prémio ‘José de Figueiredo’ pela Academia Nacional de Belas Artes, em 2008. Maria Calado, historiadora e antiga vereadora da CML, que participou no mesmo projeto, é uma das pessoas que melhor definem a perfilada. Trabalharam juntas muito tempo, viajaram e partilharam o mesmo conceito de património: “A Gabriela é uma investigadora rigorosa, uma grande comunicadora, cidadã consciente, atenta e interveniente”, defende. “São características muito próprias o seu pleno envolvimento nos projetos em que se envolve, bem como uma grande capacidade para trabalhar em equipa”, esclarece Maria Calado.
A ex-vereadora sublinha ainda que Gabriela é uma “excelente companheira de viagem” e que “conjuga rigor e seriedade científica com o prazer da descoberta e o gosto pela vida".

Lisboa: cidade iluminada e iluminista

As teses de mestrado que vai arguir nos próximos dias, empilhadas em cima da secretária, as pastas que abre no portátil, recheadas de documentos a publicar no futuro, e as rugas que lhe marcam o sorriso têm uma relação inevitável. Mas Gabriela sabe que o cérebro humano precisa de pouco mais de quatro horas para descansar, e o mesmo se passa com o seu. Não dorme mais do que cinco, nem precisa. O tempo é bem gerido para fazer tudo o que lhe apetece: “Gosto de fazer várias coisas ao mesmo tempo para não me aborrecer”, diz, mirando o manancial de ideias que o seu escritório sugere. Daí não lhe sobrar tempo sequer para ter uma conta no facebook.
Lisboa é a sua inspiração. Sobre ela fala, escreve, pinta e até canta o fado, quando o ambiente se proporciona. A alma da cidade sabe-lhe ao sal do Atlântico, às especiarias do Índico e à ginjinha do Rossio, da qual recorda os concursos de cuspir caroços. É uma alma que reflete uma luz única e que, embora pareça cliché, é o que melhor caracteriza a cidade, de acordo com a olisipógrafa.
Com raízes nos Anjos e uma paixão muito particular pelo bairro da Bica, Gabriela tem dificuldade em identificar-se com um só local da cidade: “Não há nenhum sítio com o qual me identifique mais em Lisboa do que em Lisboa toda”, responde, por fim.
Mas a alma de Lisboa também a preocupa, e Gabriela percebe, como poucos, os riscos que a cidade corre, sobretudo se uma nova catástrofe semelhante ao Terramoto de 1755 se abater sobre a capital: “Ninguém consegue preparar-se para uma coisa destas”, afirma Gabriela.
Acredita que a Baixa Pombalina está em verdadeiro perigo, até porque a engenharia antissísmica dos prédios está a ser destruída pelos proprietários: “O que é que aguenta a Baixa Pombalina, é a fachada? Não, são as gaiolas. A reabilitação da Baixa é refazer a gaiola[1]”. E reforça que a cidade não está preparada face a outro cataclismo semelhante, até porque o Iluminismo já passou de moda entre os arquitetos de hoje em dia.
Não é uma questão de má memória que parece afetar o povo em geral. “Pior do que ter má memória é não ter memória. Não aprendemos com os erros dos outros”, lamenta Gabriela. A História é como a Psicologia, sem ela, como saber a matéria de que é feito um povo, um país, uma cidade? E por isso Gabriela Carvalho brinca com os mais desprevenidos sobre a história de Lisboa, dizendo-lhes: “O que eu gostava era de fazer a Rua Augusta de barco”.
É aliás este discurso provocatório e por vezes enigmático que cativa os que a rodeiam. Muitos dos que conviveram e ainda convivem com Gabriela são unânimes em sublinhar a sua sabedoria, o seu dinamismo, mas também o seu sarcasmo. Diogo Trindade confessa: “O discurso muitas vezes retórico com que nos responde a certas questões, mesmo com o propósito de nos fazer pensar por nós próprios, consegue ser por vezes um pouco exasperante”, diz, com humor, o ex-aluno de Design de Moda.
Mas é Sofia Fonseca quem resume o seu perfil: “Gabriela é Lisboa, em todas as suas dimensões. O amor que tem pela cidade é materializado nas suas palavras”.




[1] Sistema antissísmico de madeira que confere elasticidade aos edifícios.